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NEUROCIÊNCIA DA ESPIRITUALIDADE
ALEXANDRE SERAFIM
Manual de Espiritualidade, Psiquiatria e Saúde Mental:
Pontes entre Mente e Alma
Páginas 56–62
CAPÍTULO 4
Introdução
O artigo examina os mecanismos neurobiológicos associados às práticas espirituais, especialmente à prece e à meditação.
Apresenta pesquisas realizadas por eletroencefalografia, ressonância magnética funcional e outros métodos de investigação, abordando a participação do córtex pré-frontal, do sistema límbico, dos núcleos talâmicos e de estruturas subcorticais.
Discute a neuroplasticidade, a atividade do sistema nervoso autônomo e a participação de neurotransmissores como dopamina, serotonina, norepinefrina e GABA, além da ocitocina e do cortisol.
O autor relaciona esses mecanismos à regulação emocional, à redução do estresse e às possibilidades de utilização complementar da prece e da meditação nos cuidados em saúde mental.
SOBRE O AUTOR
Alexandre Serafim
Neuropediatra. Mestre em Neurologia e Neurociência pela Universidade Federal de São Paulo/Escola Paulista de Medicina. Doutorando do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas de São Paulo-Universidade de São Paulo. Professor Assistente da Disciplina de Pediatria e Professor Coordenador da Disciplina de Medicina e Espiritualidade do Departamento de Medicina da Universidade de Taubaté. Presidente do Núcleo de Estudos em Saúde e Espiritualidade da Criança e do Adolescente da Sociedade de Pediatria de São Paulo (SPSP). Autor da obra Medicina e Espiritualidade Baseada em Evidência (Atheneu).
NEUROCIÊNCIA DA ESPIRITUALIDADE
Como nosso cérebro se comporta frente às práticas espirituais? Existem áreas cerebrais associadas à prece e à meditação? O cérebro é capaz de produzir substâncias benéficas à saúde quando entramos em meditação ou prece?
A esses questionamentos, pesquisas em neurociência vêm obtendo respostas. Atualmente, contamos com estudos que utilizam a eletroencefalografia (EEG) e exames de imagem funcional, como a ressonância magnética funcional (RMf), para avaliar a atividade cerebral nos momentos em que buscamos uma conexão com o que consideramos sagrado ou transcendente.¹⁻³ Esses estudos têm demonstrado que existe, de fato, um circuito neural relacionado a práticas espirituais, como prece e meditação,²,⁴,⁵ que, quando ativado, pode gerar bem-estar e redução do estresse.¹,⁶,⁷
Durante a prece e a meditação, um complexo circuito neural é ativado envolvendo, principalmente, as seguintes áreas:
1. Córtex pré-frontal dorsolateral, diretamente relacionado às nossas funções executivas, regulação dos estados de atenção e alerta e controle das funções cognitivas.⁸,⁹
2. Córtex orbitofrontal e hipocampo, associando o estado emocional ao processo de memória.¹⁰
3. Regiões da ínsula, cujas associações têm importante papel na relação de maior conscientização dos estados emocionais e as respostas corporais.¹⁰
4. Córtex do cíngulo anterior, importante nos mecanismos atencionais e na autopercepção, além de participar da regulação dos estados emocionais.⁸,¹¹,¹²
5. Córtex do cíngulo posterior, associado à melhora do foco introspectivo, com redução das divagações mentais.⁸,¹³
6. Núcleos talâmicos, formados por grupos de neurônios que realizam a interconectividade entre o córtex pré-frontal, o córtex límbico, o hipocampo e estruturas subcorticais, como as amígdalas cerebrais.¹⁴,¹⁵
Estudos utilizando eletroencefalografia (EEG) em meditação prolongada observaram aumento nas ondas beta e gama, principalmente em áreas pré-frontais, além de sincronização das ondas cerebrais,¹,⁶ sendo esses mecanismos associados à melhora da atenção e do estado emocional.¹ Já em momentos de prece, o EEG registrou aumento das ondas alfa nas regiões frontais, associado ao aumento do estado de relaxamento e à diminuição da percepção sensorial.¹⁶⁻¹⁸
Pesquisas que utilizaram exames de imagem funcional, por meio da ressonância magnética, na prática meditativa e na prece, observaram maior atividade cerebral nas mesmas áreas em que ocorreram mudanças da atividade elétrica registradas pelo EEG.² Além do mapeamento de um neurocircuito, foi possível constatar a associação da espiritualidade à neuroplasticidade (habilidade cerebral de se auto-organizar), formando novas conexões neurais.¹⁹
Por meio de estudos de volumetria cerebral, observou-se que a prática contínua de atividades espirituais pode levar ao aumento na densidade do tecido cerebral, principalmente da substância cinzenta das áreas pré-frontais, cíngulo anterior, ínsula e tronco cerebral, relacionadas, normalmente, ao controle emocional e às funções autonômicas.²,¹⁹ Por esses achados, podemos considerar que prece e meditação, em sua prática contínua ao longo do tempo e pela neuroplasticidade associada, podem ter efeito terapêutico, levando à redução do estresse e ao equilíbrio emocional, fatores importantes no combate à ansiedade e à depressão.¹⁹⁻²¹ Essa neuroplasticidade pode ser observada em idosos participantes de atividade religiosa, que mostraram menor atrofia do córtex orbitofrontal, em estudo de volume cerebral por ressonância magnética, em relação aos idosos não praticantes.²²
Efeitos sobre o sistema nervoso autônomo (SNA) também foram observados em estudos que monitoraram a frequência cardíaca e respiratória nos momentos de prece e meditação.²³ Esses estudos constataram aumento na atividade parassimpática e redução da atividade simpática,²³⁻²⁵ com diminuição da frequência cardíaca e respiratória, relaxamento muscular e sensação de quietude e leveza.²³,²⁶ Dependendo da técnica meditativa empregada, foi possível provocar, voluntariamente, aumento nos níveis das catecolaminas, melhorando a modulação da resposta imune.²⁷,²⁸ Essa relação de aumento da atividade parassimpática e redução da atividade simpática tem se mostrado benéfica, com efeito calmante para o corpo, reduzindo o estresse e os níveis de ansiedade.²⁶ Dessa forma, podemos considerar que prece e meditação têm relevância clínica e devem fazer parte dos planos de tratamento para o transtorno de ansiedade generalizada, podendo ser importantes meios de tratamento adjuvante à psicoterapia e à terapêutica farmacológica tradicional.²⁹
A complexidade na associação da atividade cerebral a práticas religiosas ocorre devido à relação complexa entre o córtex cerebral e as estruturas subcorticais, formadas por núcleos de neurônios que compõem as regiões talâmicas e os gânglios da base;³⁰,³¹ principalmente o núcleo accumbens, importante na relação entre hábitos e rotinas e a sensação de prazer, desempenhando importante papel no sistema de recompensa e no comportamento motivacional.³² A inter-relação entre essas áreas e a conectividade de ambas com o sistema límbico³³,³⁴ permite a integração entre a recepção de estímulos e a modulação das respostas, aspecto fundamental para desenvolvimento de nossas funções cognitivas e ajustes comportamentais.³⁵,³⁶
Dessa maneira, entre receber estímulos e emitir respostas, quando se trata de questões espirituais ou religiosas, temos uma interconexão entre o córtex pré-frontal, o córtex límbico, estruturas subcorticais, principalmente as amígdalas cerebrais, produtoras de dopamina,¹⁰ e o núcleo talâmico paraventricular, conhecido por sua relação com a produção e secreção da ocitocina na neuro-hipófise.⁵ Essa interconectividade possibilita ajustes entre comportamento afetivo e funções executivas,¹⁴,¹⁵ modulando emoção, cognição e memória.³⁷
A conectividade e a relação dessas diversas áreas cerebrais ocorrem porque os grupos de neurônios formadores dos gânglios e núcleos subcorticais e talâmicos produzem neurotransmissores que são liberados de acordo com os estímulos recebidos, gerando impulsos nervosos que ativam diversas áreas do córtex cerebral. É por esse processo que práticas religiosas e espirituais, incluindo prece e meditação, assim como gratidão,³⁸ bondade, altruísmo e perdão, ativam e auxiliam na regulação de importantes vias neurotransmissoras, como:
1. Vias dopaminérgicas, relacionadas à sensação de prazer e recompensa, comportamento social e motivação,³⁹ sendo cruciais para a regulação do humor.⁴⁰,⁴¹ A disfunção dessas vias está associada a transtornos psiquiátricos, como depressão, esquizofrenia e drogadição.⁴²
2. Vias serotoninérgicas, importantes vias para regulação do humor, sono, apetite e funções cognitivas.⁴³,⁴⁴ O mau funcionamento dessa via está relacionado a quadros de depressão, ansiedade e esquizofrenia.⁴⁵,⁴⁶
3. Sistema da norepinefrina, cujos níveis aumentam durante momentos de meditação, melhorando funções cognitivas, como memória de trabalho, atenção e concentração.⁴⁷
4. Vias gabaérgicas, importantes neurotransmissores inibitórios, podendo agir nos mecanismos regulatórios das emoções e desempenho cognitivo.⁴⁸
5. Ocitocina, um neuropeptídio sintetizado no hipotálamo que tem relação com a redução de estresse e a melhora nos vínculos sociais, permitindo uma inter-relação mais positiva.⁴⁹⁻⁵¹ Seus níveis plasmáticos se elevam nos momentos de prece e meditação.³,⁵,⁵²
Ainda em relação à redução do estresse em praticantes de prece e meditação, encontramos, seja por dosagem no sangue ou saliva, níveis reduzidos de cortisol,⁵³ um importante biomarcador do estresse. Estudos apontam para uma relação positiva na redução de estresse ocupacional ou burnout nos indivíduos que têm hábito de realizar preces.⁵⁴ O mesmo efeito foi observado nos praticantes de mindfulness.⁵³
A partir de todos esses estudos temos, atualmente, bases científicas muito sólidas para incluir nos tratamentos de doenças mentais as práticas espirituais. Orientar prece e meditação junto à prescrição médica sai do imaginário místico para a realidade, devendo ser prática integrante no dia a dia dos profissionais de saúde.
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